segunda-feira, 3 de junho de 2013

A complexa educação financeira

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Texto de Gustavo Cerbasi
Escolas particulares do ensino fundamental adotam práticas de educação financeira há pelo menos uma década. Entre elas, estão debates sobre mesada, simulação de feiras e de bancos, visitas a supermercados, montagem de orçamentos e participação em desafios simulados de investimento em bolsa.
Agora, essa oportunidade chega ao ensino público. Após dois anos de projeto piloto da Estratégia Nacional de Educação Financeira – ENEF, concluiu-se que a educação financeira é transformadora para a vida dos alunos e de suas famílias. Isso motivou a inclusão da disciplina como conteúdo recomendado também nos currículos das escolas públicas estaduais e municipais, a partir de 2013.
É uma conquista e tanto para a sociedade, mas também um desafio enorme para a educação. Por mais interessantes e criativas que sejam as práticas já adotadas no ensino privado e que irão para as escolas públicas, é fundamental dosar a prática para que excessos não sejam cometidos.
Algumas das metodologias utilizadas, por exemplo, estimulam as crianças a estabelecerem metas ambiciosas, propagando a filosofia do “quero ser milionário”. Trabalhadores e empreendedores competentes em gerar excedentes de seus ganhos é interessante para a sociedade, mas é sabido que a diferença entre a desejada ambição e a reprovável ganância está na dose do desejo. Não é com lições de disciplina e matemática que se cria milionários, mas sim com filosofia e capacidade de resolver problemas e agregar valor ao trabalho.
Uma linha mais comum de metodologia de ensino é aquela que trata das ferramentas de organização e controle, incluindo a prática do orçamento, o ensino da matemática financeira, o entendimento dos juros nos investimentos e nas dívidas e o estímulo à comparação de preços. Em termos de aparelhamento para conscientização, tais métodos são eficientes. Porém, tendem a ser limitados quando a abordagem se restringe a identificar as vantagens de acumular dinheiro. O risco é o de transformar consumidores compulsivos em poupadores compulsivos.
Educar para o dinheiro não é condenar o consumo e doutrinar para a poupança. É estimular a organização pessoal para que desejos de consumo não extrapolem limites e se tornem insustentáveis. É exercitar a disciplina com o objetivo de ter qualidade de consumo por toda vida, e não apenas no futuro, como recompensa de sacrifícios presentes. Ferramentas de controle devem ser exercitadas, mas sem que sejam complexas e detalhistas. Devem ser simples, para que possam ser praticados cotidianamente e não consumam nosso tempo.
As boas práticas de educação financeira devem induzir a escolhas equilibradas. Isso se faz combinando referências matemáticas com práticas ambientais, sociais, filosóficas e éticas. Por isso, recomenda-se que a educação financeira seja uma prática interdisciplinar, e não uma disciplina específica no currículo. Se pais e educadores atentarem a isso, estaremos virando uma página na história do comportamento de consumo dos brasileiros.

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